sábado, 30 de agosto de 2014

25² Metros


Tranquei minha vida em um quarto branco
Uma grande TV, um banheiro, um armário.
Uma cama grande que se falasse calaria muita gente
Mas a cama não fala, pelo menos nunca a peguei conversando com o criado mudo, esse sim tenho certeza que não fala nada mesmo.
Uma mesa, um computador, uma mesinha menor que se falasse teria muito que contar, possivelmente até a cama ficaria com inveja.
Um rádio velho, uns dois quadrinhos menores e um grande quadro do mestre.
Algumas bobagens soltas e algumas roupas espalhadas
Parece tão pouco, tão apertado, tão pequeno e tão vazio.
Um universo branco, de 25 metros quadrados.
Aqui eu vivo, aqui eu durmo, aqui eu acordo, aqui eu fico.
Sorrio e choro, escrevo e apago, trabalho e descanso, converso ou simplesmente não faço nada.
Quando você entra aqui está entrando no meu mundo, lá fora não me importa mais nada.
Meu mundo é aqui. Branco, quieto e vazio.
Acho que fiz um modelo de como eu me sinto.
Sem cor, sem nada, sem ninguém além de mim.
Povoado pelos meus pensamentos é o lugar em que habito.
Por mais que eu saia, é sempre para cá que eu volto.
É sempre aqui que eu termino.
E deve ser aqui que vou terminar.

Márcio David
12/08/2013

Um Sexto de Hora

Às vezes temos apenas 10 minutos para arrumar as coisas e ir para escola.
Às vezes faltam 10 minutos para terminar uma tarefa antes de a aula acabar.
Às vezes rezo 10 minutos de forma decorada e nem sei o que estou dizendo.
Às vezes fico 10 minutos olhando pela janela do meu quarto as pessoas na rua.
Às vezes fico 10 minutos no banho pensando em sair do banho.
Às vezes se eu chegasse 10 minutos antes tinha conseguido me atrasar só 10 minutos.
Às vezes 10 minutos me fazem ir a pé para casa.
Às vezes ando 10 minutos e fico cansado, então eu paro por 10 minutos.
Às vezes eu penso 10 minutos, e depois fico pensando por que fiquei 10 minutos pensando?
Esses dias eu dormi e sonhei, e no sonho estava dormindo também, e sonhei que estava sonhando, então acordei e fiquei em duvida. Se eu sonhei que estava sonhando e acordei, será que sonhei que tinha acordado? E continuava sonhando? Ou será que o sonho do meu sonho tinha acabado e eu tinha sonhado que estava acordando? Na duvida não abri os olhos, tinha medo de estar acordado mesmo e todos rindo de mim, preferia esperar e ver se o sonho que eu sonhava que estava sonhando já tinha terminado, ou ainda estava sonhando, mas desta vez sonhando que já tinha acordado do meu sonho. Como não decidi o que estava acontecendo dormi mais 10 minutos só não sei se sonhei isso ou dormi mesmo.
Acordei e esperei 10 minutos para levantar
Às vezes meu time perde por que leva um gol aos 35 minutos do segundo tempo
Queria ter 10 minutos de amor todo dia
Queria rir 10 minutos sem parar, mas levei 5 lendo, 3 relendo, 1 minuto e 50 segundos  para entender, mesmo assim, consegui rir por 10 segundos.
Levo 30 dias para ganhar meu salário, e ele só dura 10 minutos.
Queria que meus momentos felizes durassem mais de 10 minutos.

Márcio David
07/09/2011

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Chuva


















Barulho de água correndo nas calhas
Levando consigo a poeira das telhas
Embalando o sono de quem dorme a beira da janela
Em uma tarde de julho cinzenta
Tudo na casa está triste
Desde a pouca luz que entra pelo vidro
Até as plantas ao redor do aquário
Mesmos os peixinhos nadam devagar
E parecem compartilhar o sentimento desse dia
Em meio ao som da chuva só lembranças vêm à mente
Quase nenhuma tem haver com um dia assim
Afinal o que alguém teria para lembrar-se de bom em dias de solidão
Talvez se lembrar de um livro que você leu
Ou de um filme visto em um dia como esse no ano passado
Mesmo que fosse algo assim, não acredito ser um fato digno de lembrança
Tanto que ninguém lembra, muito menos você
Mas o que mexe contigo é algo que você lembra todos os dias
E não apenas nas tardes cinzentas e chuvosas de julho
É a sombra recorrente dos seus dias
São as manchas alvas nas escuras lacunas dos seus sentimentos
É a falta que eu faço em sua vida
É algo que não passa como a chuva
Que não vai embora como a poeira das telhas
Que corre de você como a água nas calhas
Continue dormindo nessa tarde cinzenta à beira da janela
Quem sabe um dia eu passe na sua rua
Mas não será em um dia de chuva.

Márcio David
10/08/2013

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ainda Respirando
















Deitado, observo apenas meu peito subir e descer
O ar que entra nem sempre chega onde deveria
Entre o entroncamento dos vasos ele acaba se perdendo
Quando sai de mim leva mais que apenas dióxido de carbono
Leva um suspiro que poderia ser o último
Passar os dias assim não me faz feliz
Ficar aqui apenas respirando
O mundo vivendo, tudo acontecendo, a vida passando e eu apenas respirando.
Às vezes o ar é gelado
E o frio se espalha dentro de mim
Nessa hora parece que ele pesa muito
Não vai onde deveria e não volta também
É apenas ar frio que me faz lutar ainda mais
Apenas para respirar
Passar os dias de inverno assim não me faz feliz
Ficar aqui apenas respirando
O mundo vivendo, tudo acontecendo, a vida passando e eu apenas respirando.
Parece que eu sinto cada polegada de ar que meu corpo absorve
E parece que também sinto as polegadas que me faltam
Até as minhas ideias se perdem, até minha lógica se perde.
Às vezes é melhor não ter ninguém por perto
Não quero ver ninguém me vendo lutar com o invisível e perder
Passar os dias assim definitivamente não me faz feliz
Breve assim uma hora ou outra entre uma subida e uma descida tudo termina
Assim finalmente não vou ficar apenas olhando o mundo acontecendo e a eu apenas respirando

Márcio David
20/10/2012

Ao Olhar a Chuva no Campo

Olhar a chuva que cai ao longe por entre os pinheiros do largo, sobre a vila ao fim da tarde num fim de verão de um ano qualquer, que belas lembranças têm dos tempos atrás que longe dispersa em nuvens cândidas seu toque, mulher!

Em meio à lânguida noite aconselha em versos rimados um “certo” cuidado ter em seus pés, que podem levá-la quão longe de mim em trajes de gala ou e um manto perolado, o qual foi guardado num quarto largado em um canto qualquer.

Saber que tomas da noite o ar gelado do frio manto sagrado que jaz enrolado num corpo sem vida da antes linda agora adormecida sobre uma cama em dossel, no mesmo ponto marcado pelo quarto enviado dos filhos de Ariel, assim foi julgado e outrora condenado o ódio lançando sobre amores passados em fatos escritos nos livros malditos banhados em fel.

Amarga vida sua em minha vista presente em meios intransigentes de algoz e face à dor que sentia que mesmo sozinha guardava para si só, amor que trazia aos poucos esvaia do amado partia em poucas alegrias e muitas dores viriam até o fim dos dias ao qual voltaria apenas a ser pó.

Escrita minha amada tinha em folhas douradas e tinta de nanquim, num testamento assim deixavas para mim suas palavras sem dó, partias em rompante levavas da estante os livros interessantes que expulsavam de sua mente a sensação de viver só. Mas nada minha amada leva desse coração partido em dois que te fosse inteiro um dia que só a ti pertencia no agora e não no depois.

As tardes se fazem frias na estação que se aproxima em meio a dias de sol, e essa busca em que te findas traga a ti novas idas nas luzes do arrebol, o frescor da manhã seja para ti o bálsamo que alivia as feridas das marcas mal vindas escritas em tua alma escondida já que só queres ver o sol.

Márcio David
22/03/2005

“Inspirado por uma fina garoa que caia sobre o centro da cidade de Lages no dia 22 de março de 2005, à qual era visível ao longe por entre os pinheiros”

I/O Lover’s

Beep, beep,  mais um dia que se inicia, mais uma vez tenho de carregar minhas energias e inicializar minhas atividades, vestir as roupas, calçar os sapatos e acoplar outros dispositivos.

Sabe? Tem dias em que a gente fica de disco cheio, e nem sempre adianta apenas apagar os temporários e excluir os cookies da vida, há dias em que pouca informação já basta para causar uma falha geral inesperada, nem sempre estamos imunes às coisas ruins que nos enviam ou que compartilhamos com os outros usuários desse mundo.

Tenho vontade de rebootar a minha vida, formatar o meu passado e quem sabe até instalar um novo sistema ou pelo menos uma nova versão de mim mesmo, regravar velhas passagens, por enquanto é tudo que posso fazer. Vejo com saudade os backups que tenho guardados e às vezes me pego vasculhando antigos arquivos em busca de soluções para novos problemas.

Acho que o “crash” startou quando nossas vidas se particionaram, sei que isso foi inevitável, pois do modo como nosso sentimentos estavam fragmentados já era difícil reordenar os clusters do nosso relacionamento. Enfim, acho que agora estamos tentando novas conexões, novos meios de transferência de sentimentos e emoções, algumas são plug and play e se resolvem rápido, outras exigem drivers mais novos ou quem sabe um driver tão raro que nem valem a pena tentar instalar estes dispositivos.

Estamos full time vivendo tudo em altas taxas de transmissão, hoje tudo é rápido, em gigacíclos as unidades de tempo são cada vez menores, tudo é tão rápido que quando você se adapta essa coisa já mudou.

Esse é o nosso mundo, nossa WAN, nossa LAN de amigos às vezes ainda se conecta como fazíamos nas antigas BBS´s de outrora, tudo era diferente, eram tempos diferentes, tudo exigia menos capacidade, e compartilhávamos as coisas com mais amizade, tudo dava mais trabalho, mas era muito divertido.

E hoje? Acho que vou entrar no circulo da multitarefa, fiquei tanto tempo servindo um monousuário que hoje percebo que não valeu à pena, acho que nossa parceria não passou do estágio beta, enfim o projeto foi abortado, mesmo que nossos sonhos tenham sido deletados da versão final, ainda é possível encontrar o código fonte deles em velhas unidades perfuradas que estão em uma caixinha no armário, são apenas 180K de sonhos, mas nunca se esqueça, somos apenas zeros e uns, fomos um e um, hoje apenas zero e zero, quem sabe mais adiante encontremos uma porta NOT na nossa existência e então às entradas sejam setadas novamente, mas nesse meio tempo vamos pegar nossos pacotes e seguir outras rotas, quem sabe o próximo usuário seja mais amigável com o sistema.

Márcio David
14/02/2005

Depois da Noite

Um sonho apenas não basta
Ter-te somente em sonhos não basta
Ouvir você de longe não basta
Não dizer que te amo
Não dizer que te quero
Não fazer a minha vida

Por que foi tão importante?
Por que eu não te esqueço?
Por que essa distância?
Volte pra mim, mais uma vez.
Eu preciso dizer ao mundo
Que eu te amo

Uma canção para você não basta
A melodia fria não chora
A poesia do livro não ama
Eu sem você não vivo
E todas as noites eu pergunto... Por quê?

Márcio David
31/05/2001

793-2522

Ontem o telefone tocou
Não esperava que fosse você
Como sempre me perguntou
Se eu estava bem, se eu estava feliz.
Em sua voz eu percebi
Que tudo era uma desculpa
Dizia que estava legal
Mas bem lá no fundo
Não era verdade

Tantas palavras, tantas perguntas.
Não eram para mim
Eram para você
Com seu jeito reverso
Queria me dizer
Que ainda somos um

Encontros marcados
Tantos esquecidos
Tempos de amor
Tantos perdidos
É tão engraçado
Como não resolvemos
Foi tão estranho
Como não percebemos
Que éramos um
E hoje estamos sós e acompanhados

E ainda não acabou
Nossa historia ainda não terminou
O nosso tempo ainda não acabou
Tudo o que fomos ainda não terminou

A solidão ainda não acabou
A sua falta ainda não terminou
O meu sonho ainda não acabou
A nossa vida mal começou

Márcio David
02/06/2001